Lançado em 2000, o filme “Do Que as Mulheres Gostam” apresenta Nick Marshall, personagem interpretado por Mel Gibson: um publicitário bem-sucedido, confiante, sedutor e, principalmente, bastante machista. Sua vida muda completamente depois de um acidente que lhe dá uma habilidade extraordinária: ele passa a ouvir os pensamentos das mulheres.
A partir daí, aquilo que parecia uma vantagem masculina transforma-se em uma espécie de castigo pedagógico. Nick começa a descobrir que, por trás dos sorrisos, das roupas, dos relacionamentos e das aparências, existem mulheres com preocupações, sonhos, inseguranças, ambições profissionais e desejos próprios.
E é justamente aí que o filme começa a ficar interessante.
O HOMEM QUE ACHAVA QUE SABIA TUDO
Nick Marshall acreditava conhecer as mulheres porque convivia com elas, trabalhava com elas e se relacionava com elas.
Mas descobrir o que elas realmente pensavam revelou uma verdade incômoda: conviver com alguém não significa necessariamente compreendê-lo.
O filme utiliza a fantasia de ler pensamentos para provocar uma reflexão sobre algo muito real: a dificuldade que muitas pessoas têm de verdadeiramente escutar o outro.
O crítico Roger Ebert resumiu uma das grandes ideias do filme ao observar que, antes de qualquer coisa, as mulheres querem um homem disposto a ouvi-las.
DE 2000 PARA A DÉCADA DE 2020
Mais de duas décadas depois, a pergunta “o que as mulheres querem?” precisa ser feita de outra maneira.
Não existe uma resposta única.
A mulher contemporânea não pode ser tratada como um grupo homogêneo. Existem diferentes gerações, profissões, estilos de vida, projetos pessoais, visões de relacionamento e prioridades.
Se Nick Marshall tivesse hoje o poder de ouvir pensamentos, provavelmente descobriria que muitas mulheres não estão esperando que um homem descubra magicamente seus desejos.
Elas querem ser ouvidas sem precisar gritar.
Querem respeito.
Querem autonomia.
Querem reconhecimento profissional.
Querem segurança.
Querem liberdade para escolher.
Querem relacionamentos nos quais exista parceria, e não simplesmente alguém exercendo controle sobre suas decisões.
NO MERCADO DE TRABALHO, A HISTÓRIA MUDOU
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes do filme.
Nick vive em um ambiente publicitário no qual sua visão sobre liderança e competência é confrontada pela ascensão de Darcy Maguire, personagem de Helen Hunt.
A própria estrutura narrativa coloca diante dele uma mulher que ocupa uma posição de liderança e representa uma mudança no ambiente profissional.
Na década de 2020, essa discussão ganhou novas dimensões.
A mulher não quer apenas “ter uma oportunidade”.
Ela quer que sua competência seja reconhecida sem que seu gênero seja utilizado como argumento contra ela.
E isso modifica profundamente a pergunta do filme.
Talvez não seja mais:
“O que as mulheres querem?”
Mas sim:
“Por que ainda precisamos perguntar o que as mulheres querem, quando podemos simplesmente ouvi-las?”
O UNIVERSO FEMININO NÃO CABE EM UMA FÓRMULA
O grande erro de Nick é acreditar que, conhecendo alguns pensamentos femininos, ele finalmente terá a fórmula perfeita.
Mas pessoas não são fórmulas.
Uma mulher pode desejar independência e, ao mesmo tempo, querer viver um grande amor.
Pode ser extremamente profissional e valorizar a família.
Pode querer casamento ou não querer.
Pode desejar filhos ou não.
Pode gostar de romantismo ou preferir relações mais independentes.
Pode querer estabilidade ou aventura.
Pode buscar sucesso profissional ou escolher uma vida mais tranquila.
Portanto, não existe “a mulher” como uma personalidade única. Existem mulheres.
Essa talvez seja uma das principais diferenças entre o universo retratado pelo filme de 2000 e a realidade da década de 2020.
O QUE REALMENTE MUDOU?
Mudou a tecnologia.
Mudaram os costumes.
Mudou o mercado de trabalho.
Mudou a comunicação.
Mudaram os relacionamentos.
As redes sociais transformaram a maneira como homens e mulheres se conhecem, conversam, se apresentam e até terminam relacionamentos.
Mas uma coisa continua extremamente atual:
A necessidade de respeito e comunicação verdadeira.
A fantasia de Nick Marshall pode parecer impossível, mas existe uma alternativa muito mais simples e humana: perguntar, ouvir e respeitar.
E O HOMEM CONTEMPORÂNEO?
Decifrar o universo feminino também exige uma transformação do universo masculino.
O homem não precisa abandonar sua masculinidade para aprender a ouvir.
Não precisa deixar de ser forte para demonstrar sensibilidade.
Não precisa perder sua autoridade para respeitar uma mulher.
O verdadeiro amadurecimento está em compreender que relacionamento não é disputa de poder.
É construção.
É parceria.
É confiança.
É diálogo.
A GRANDE LIÇÃO DO FILME
“Do Que as Mulheres Gostam” começa como uma comédia sobre um homem que ganha o poder de ouvir pensamentos femininos.
Mas termina como uma história sobre empatia.
Nick começa querendo utilizar aquela capacidade para conquistar vantagens profissionais e pessoais. Aos poucos, porém, percebe que conhecer a intimidade das pessoas também significa enxergar suas dores, seus medos e suas necessidades.
É aí que o personagem começa a mudar.
E talvez essa seja a grande mensagem que permanece atual.
Em 2000, o filme perguntava:
“Do que as mulheres gostam?”
Em 2026, talvez a pergunta mais inteligente seja:
“Estamos realmente preparados para ouvir o que as mulheres estão dizendo?”
Porque ouvir pensamentos seria um superpoder.
Mas ouvir voluntariamente, compreender e respeitar alguém...
isso é maturidade.
E talvez seja justamente isso que homens e mulheres continuam procurando: não alguém que consiga ler suas mentes, mas alguém que tenha disposição para compreender seus corações.
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